Pois eu nasci com o sol em 24 de abril de 1981.
Fui uma criança engraçada, dizem, brincalhão e palhaço. Fui crescendo e ficando insuportável, insolente e cheios de respostas. Tinha também muitas dúvidas e desenhava em folhas de rascunho que minha mãe trazia da biblioteca onde era bibliotecária.
Quando tinha alguns meses, minha mãe me deixou uns minutos sobre a cama do quarto; virei e caí de cara no chão. Acudiram o bebê, que chorava muito.
Cresci, mas não muito. Estudei, mas não o bastante. Hoje não sou nada. Nesta data, sou estagiário numa certa biblioteca de uma certa universidade. Quase trinta anos. Glórias, nenhuma. Vergonha, alguma, nem por isso o suficiente.
Trabalho meio período e tenho, durante o expediente, muito tempo livre. Guardo os livros nas estantes. Anoto: teses, referência, periódicos. Atendo os estudantes no balcão. Sou, com eles, suficientemente gentil, vez ou outra peço silêncio na sala, nem por isso me odeiam. Me desprezam com alguma ternura, na minha insignificância de universitário balconista. As meninas, especialmente, gostam muito de mim. Sempre gostaram. Como se gosta de gatos ou periquitos.
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