quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Nina Hagen - Zarah


O que houve ultimamente foi que tenho ouvido Nina Hagen enlouquecidamente. Adoro isso, é louco, é tresloucado, ela tem uma voz fantástica, uma extensão absurda. É transgressor, é über-drag, é meta-musical - ela canta clássicos de Zarah Leander, uma cantora da Alemanha nazista, ela mistura punk, electro e ópera, ela é adorável, inspiradora e engraçada...

Poema para a chuva desta noite

Espelho-me na chuva.
Sucinto.

Assim minhas palavras.
Seja, assim, minha fala,
breve.
O tom,
muito leve.
Não vamos franzir o cenho,
sem ousar. Breve,
muito breve.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Dia daqueles em que temos que tomar decisões sobre o futuro próximo, daquelas importantes, de humilhações nada sutis, de uma solidão evolvente como azeite, de desprezo, rompimento de laços.
Que silêncio.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A vida durante a guerra.

Seqüência do filme "Felicidade", mesmos personagens, outro elenco. Ótimo: humor fino, história envolvente. Losers, winners e todo o mundo está na merda. Ácido.
Charlotte Rampling aparece fazendo uma ponta numa cena esplêndida.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Ode às Gerais

Estou hoje muito cansado
estamos todos cansados
de não fazer nada e o sol
arrasa a terra inteira.
Como levados no leito
de um rio imenso, lento,
deslizamos pelo dia adentro:
sem debatermo-nos
nem ousar contra o curso
natural das coisas.
Essa conversa da Célia e da Conceição
e o apito do telefone
eu queria, hoje, que estou cansado,
fossem mais como o quero-quero
atiçado no pasto
e o marulhar sossegado
do rio em tempos de cheia
que ensinaram o povo das Gerais
a deixar-se guiar pelos ruídos do mundo,
a deixar-se passar como os ruídos do mundo,
sossegadamente assistindo ao movimento da rua
esperando unicamente
que o tempo passe.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Renata brigou comigo,
não atende mais o telefone;
brigou porque tem tristeza,
tem tristeza porque tem ciúme.
A Renata tem muitos vícios,
tem muitos vícios e não assume:
põe a culpa na pobreza,
mas é a pobreza,
ensinou-me um sábio,
que ressalta as virtudes.
Me bloqueou no Facebook, até.
Livro, bicicleta, a conta do restaurante,
nada disso me importa mais
(nem, em verdade, importou)
mas há algo que me é caro,
algo que está com você,
é um livro:
Renata, eu lhe peço,
devolva o que é meu:
o roubo é uma falta tão grave
que não vale a pena manchar-se dela
tomando o que não é seu.
Não há esperteza no mundo
que valha sem honra e valor
essa é a moral dos ricos de espírito
de que nem os pobres estão eximidos.

O estranho caso de Angélica - Manuel de Oliveira

Fiquei estarrecido ao confrontar minha opinião à da crítica sobre o último de Manuel de Oliveira, diretor que, assumo, desconheço: é difícil, portanto, estabelecer relações. Mas o filme é antinatural nas atuações, tem diálogos engessados, antigos, com acentos de erudição poética e uma estória construída em moldes ainda mais antigos que o diretor: um fotógrafo sefardita, Isaac, apaixona-se pelo cadáver de que foi contratado para tirar fotografias, a linda Angélica morta com sorriso na cara, açucaradamente reclinada sobre o canapé onde a mãe e a criada antissemita a haviam ajeitado como um enfeite. Doido de amores necrófilos o moço acaba perdendo a cabeça e enlouquecendo, vindo a falecer. Essa é velha, gente que endoidece por causa da sexualidade perversa. De qualquer maneira, uma história muito da mal contata e muito besta. Anotei o título dos romances que o Isaac tinha na cabeceira da cama - que fizeram questão de fotografar bem de perto a lombada e eu tomei como recomendação. Não paguei pela sessão no MIS. Ok.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Célia, Conceição e toda a gente

Meus versos são meus solilóquios:
minha forma viril de fugir ao tédio.
Célia e Conceição estão e não estão:
todo o dia seus corpos se movem
e dir-se-ia mesmo que falam, não fosse
que não dizem nada.
Que importa a elas a metafísica das coisas,
a sutileza de artistas flamingos
que não se podem servir à janta?

Célia e Conceição, funcionárias da biblioteca
de livros que não aprenderam a amar,
são toda a gente ao redor...
O silêncio das bibliotecas é sagrado,
(é mais sagrado)
que os altares a que se referem, bestas,
em romarias durante a Quaresma.
Malditas, como toca este telefone e como falam!

Eu, comigo, rio-me delas:
convido-o a ti, que lês isto aqui
que também delas te rias,
como de toda a gente.
Há, nos mínimos gestos,
significados além deles mesmos:
a transcendência do mundo está
no amor que dedicamos ao próximo:
se nada resta da vida quando termina
como do balcão desta biblioteca em mim quando me vou,
ao menos o silêncio dediquemos ao outro
em respeito a suas dúvidas e labor
seja ele, o silêncio, o que restou de sagrado,
minha declaração de amor.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Momento de fúria

Irto e rústico de finas lanças
pequeno e inútil e no entanto
doloroso, peçonhento, flamejante:
possuo os truques das taturanas
lagartas ressentidas para além da vida,
que, mortas, de seus algozes vingam-se,
da cova.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A Léa T.

Leandro, que bom revê-lo;
mostrando-te ainda assim
esplendidamente inteiro
arrebatadoramente nu.
Por anos foste somente
a lembrança de amigo
de infância, criança
amiga de jogos, de sala.
Pois que hoje apareces,
teus olhos, os mesmos,
não mais criança,
mulher.

Mudamos todos,
mas tu!
Transmutaste teu corpo
para ser fiel ao espírito
arrancando de si as cadeias
do Caos, desfazendo
os enganos congênitos,
alçando, sublime,
contra Deus,
tuas mãos finíssimas.

O gesso das imagens
segue indiferente
ao riso do vulgo.
Não há que estrelas
na esfera infinita,
nenhum julgamento
nem crime,
ou salvação;
que estamos sozinhos
lançados à vertigem
de seguir girando,
não para sempre
(que nada é eterno)
mas por longo tempo,
em redor de um Astro.

Não te resignaste:
lúcido Titã,
fizeste de ti o que de ti
não quis fazer o Fado.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Poesia moderna

Muda
harpa
de palavras.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Piles of stones

There was a pile of stones
by the river's brim
and only a pile of stones
it was to me.

The stones stood still
one over the other
carefully molded
by the river's waters;
incessantly rolling
down the mountain's side,
their movement frozen,
piled on one another
stopped in time.

There's a pair of boys
by the river's brim
and only a pair of boys
they are to me.

They pile the stones
they play, they live,
I hear them laughing from a distance:
they sleep at last
they rest content.

The day is over
and night has come.
There's a pile of stones
by the river's brim.

a Brian Kenny

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Amores viários

Esperamos o amor
como a um ônibus.
Subimos no ônibus
querendo descer,
porque sufocamos.

Gritos e sussurros

Eu sou da opinião que não se conta histórias por contar, mas há algo que se quer dizer ao narrar alguma coisa de certo modo. Como se narra é tão importante quanto o que se diz: neste filme o Bergman fala do que ele sempre fala, da vida. De caridade, devoção, honestidade, felicidade - referindo-se aos seus opostos. Quando se diz branco, entende-se também o que lhe é contrário: narrando a morte, narra-se também a vida.
A foto acima é da cena final: com as sombrinhas estão três irmãs; a do meio, Agnes (Harriet Andersson), muito doente. As outras vieram para acompanhá-la em seus últimos dias. A mais velha, Karin (Ingrid Thulin), que na foto está à direita, mostra-se sempre elegante e austera. A mais nova, Maria (Liv Ullmann), é a mais atraente e lembra muito a mãe, representada pela mesma atriz nos flashbacks. Um pouco atrás do grupo vem a ama, Anna (Kari Sylwan), uma moça dedicada que há anos cuida de Agnes como se fosse sua filha, cujo luto parece não ter nunca superado.
Quem se supera é o Bergman - na análise psicológica, muito sutil, das personagens, apresentadas por meio de flashbacks e sonhos e fantasias de cada uma. A fotografia esplêndida e sensível, expressionista, de Sven Nikvist lhe valeu o Oscar, o BAFTA (prêmio britânico) e Cannes.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

De onde vêm os poemas

Escrevem-se assim os poemas,
quando eles querem.
Buscamo-los, mas são eles que vêm,
inconvenientes às vezes,
à hora do almoço.
Sobem tapando os ouvidos
enchendo os olhos de água
mas doces saindo
de mim.
As palavras não alcançam
o que dizem os poemas
acompanham apenas
os traços predefinidos
errando o caminho
e tropeçando
nas sutilezas
de idéias perfeitas
fisicamente impossíveis,
como é impossível
satisfazer-se para sempre
a sede
ou o Infinito.

Quem sabe de onde virão os poemas,
talvez dos poetas.
Quem sabe de onde virão os poetas,
talvez de algum país distante
provavelmente da Europa
onde, se diz,
as pessoas têm muito a dizer
e um inverno longo
quando fecham-se todos em casa
e não há sol que por poucas horas.

Houve também aqui muitos poetas,
morreram todos.
Poetas são sempre pessoas mortas
poetas vivos não têm credibilidade nenhuma
nem os críticos se interessam por eles
e críticos,
essa gente,
se interessa por muita coisa.

Poemas, na verdade, não dizem nada
mas a verdade
uma verdade
é certo, fingida,
porque a verdade também não existe.
Mas há que se acreditar em algo.
Dal fondo del pozzo
dove non filtra
un raggio di sole
scorgo le stelle.

Escrever sonetos






Escrever sonetos, pegar palavra a laço,
dizer em alexandrinos, com ritmo marcado,
adaptar-se a uma forma, com cuidado
e ser a forma, paciência, passo a passo.

Poesia é só um jogo, jogo de afetados,
dizer o de sempre num registro menos baixo
escolher o termo, vendo se o encaixo,
na forma antiga com deuses do passado.

Martelar versos como carroceria,
Juntar palavras, o leitor e constrangê-los
jogar no assunto dois cubos de gelo
querer parar a vida, o mundo, a correria.

Vês que aqui tens um soneto, irregular e ruim: 
Não poupo nada; nem aos outros nem a mim.



em ser original

Não me preocupo em ser original.
Há tantos originais por aí!
Haverá mesmo muitos outros
que escrevem
para viver.
Não,
talvez como eu,
para viver,
haja poucos com tão pouca sorte.

Tão linda é a vida,
tão lindas as tardes,
e quantos desejos
mas eu não quero nada.

Haverá flores no campo
e para as flores, namorados,
para os namorados haverá noites
e só para eles os plenilúnios
e o prazer de viver e de ser piegas
impunemente.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

sem título 1

Em querer ser poeta, tornei-me triste.
Vaidade das vaidades, tudo é vaidade,
e escrever poemas é das piores;
vaidade por vaidade
felicidade não pode ser
sem vaidade.
Nos outros ou nos espelhos
procuramos o que em nós haveria de bom e de belo.
Só pó e reflexos,
mímica e tédio.

Acende um cigarro,
fuma um cigarro,
solta fumaça,
a vida é isto.

Se eu não fosse tão triste organizaria as contas,
as prateleiras,
em tudo poria prateleiras,
tomaria uma atitude em vez de fazer versos
e faria as malas para Pasárgada,
no Uzbequistão,
prestaria concurso,
seria útil como meu avô,
minha avó,
Napoleão Bonaparte,
todos esses mortos,
toda essa gente
que não é mais gente
que não é mais nada.

Quando penso neles
ai que preguiça!,
sento-me,
esperando passar.
Não passa nunca,
mas passa um moço tão lindo,
que esperando revê-lo
sigo vivendo.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

A Arca Russa

Todo mundo achou este filme chato. Não é muito longo, dura como os outros, uma hora e meia. Numa única tomada, sem cortes, acompanhamos dois fantasmas perdidos no tempo, na eternidade de um Palácio de Inverno gelado em São Petersburgo. Como são eternos, viajam também pelo tempo, passando de um salão ao outro, de uma época a outra, encontrando personagens ilustres que habitaram aqueles muros: Pedro o Grande, Catarina II, uma comitiva persa, o diretor do Hermitage à época de Stalin, Pushkin tendo uma crise de ciúmes da esposa; viajam pela Rússia: um espírito do passado, romântico, outsider, dono de uma ironia que não preserva nada, Marquês de Custine; o outro, moderno, algo passivo em relação a Custine, o verdadeiro protagonista, o olhar da câmera, do público.
A mim, o filme tocou imensamente: foi uma verdadeira "Arca Russa" dentro da qual, desordenadamente (que importa), achei pérolas e elementos da Humanidade, mais do que russa, dos últimos trezentos anos - mas principalmente do século que passou, que sepultou tantas castas, tantos hábitos e crenças que se queriam eternos.
Fragmentário, erudito, hermético - um pouco saudosista talvez - este filme caracteriza bem esse país - uma cultura única, cravada entre Europa e Ásia, uma mistura bizantina de dois continentes, um império imenso, hoje à deriva num oceano de possibilidades, sem porto, fadado a uma existência sem semelhantes.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

No more tears


Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa da minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
e depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos grande
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar.



As pessoas falam demais em contemporaneidade. Demais. A contemporaneidade passou a ser um valor por si: amamos mais o que é contemporâneo, fazemos um enorme esforço para sermos modernos, superarmos nosso tempo. Os diretores de hoje são melhores que os de ontem; o filme argentino que ganhou o Oscar nos diz mais do que Bergman, é isso aí. Eu gosto dessa poeta portuguesa, viva, Adília Lopes. Adília Lopes é um pseudônimo, mas não interessa. Não me interessa minimamente quem é Adília Lopes, a mulher. Eu amo Adília Lopes poeta, inalcançável, diáfana e metafísica - carne, corpo, dor, irmã em seus poemas.

Paul Klee: A virgem na árvore, 1903.

O diretor autríaco Michael Haneke apresentou, este ano, em Cannes, mais um filme: A fita branca. Alguém deve ter tido a paciência de ficar na sala por mais de duas horas de filme, como eu: a fotografia primorosa em preto e branco, ótimas atuações e um roteiro interessante, ambíguo (como de praxe para o diretor), denso, algo sinistro. Os temas de Haneke costumam ser a opressão, o sofrimento, o mal. Como toda obra de arte, o filme é um símbolo. Importa menos, no desfecho, quem cometeu os crimes do que a reflexão sobre a educação que os filhos do pastor recebiam, sobre a relação que o barão mantinha com seus empregados, que o médico com sua amante e sua filha; como nos amamos, como crescemos e nos casamos, no que nos tornamos - frutos nós mesmos de nossas experiências.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Maconha e dominação

Uma vez por ano, há alguns anos, um grupo de jovens se reúne na Av. Paulista ou no Ibirapuera para pedir a descriminalização do uso da Cannabis Sativa, a maconha. O protesto é invariavelmente reprimido pela Polícia Militar, apesar da presença de políticos e do apoio que a marcha recebe de alguns setores sociais, sob pretexto de "Apologia ao Crime". Ninguém sabe definir exatamente o que é essa apologia à droga. Acho que não tem ninguém ali dizendo que maconha é bom e saudável ou que o tráfico de drogas é patrimônio nacional: pelo contrário, as pessoas querem expressar livremente sua opinião sobre um tema discutido em diversas esferas da coisa pública. A legalização do uso e plantio da Cannabis, por exemplo, poderia gerar estudos clínicos sobre seu uso, poderia aumentar a qualidade do produto que circula por aí - causando menos prejuízo aos usuários que têm de entuchar o cérebro com amoníaco e esterco - poderia diminuir a violência causada pelo tráfico. Não: reprime-se a marcha num atentado às liberdades democráticas - um de seus valores mais importantes é justamente a liberdade de poder expressar as próprias idéias, distorcem-se o significado de um movimento e suas ideias. 
No entanto, o uso da maconha é largamente tolerado. Todo o mundo fuma: jornalistas, psicólogos, engenheiros, advogados. O uso está altamente disseminado. Nas escolas, nas universidades, todo o mundo fuma. O povo todo fuma. Um uso que não está livre de prejuízos, no entanto. A noção de que "maconha não é droga" também está equivocada. É droga sim, como o álcool e o tabaco também o são e traz consigo danos à saúde e à psique do usuário - que vão desde prejuízos à memória, atenção, depressão e por aí vai. Contudo, a maconha estando legalizada, já não se poderia tão facilmente prender ou incriminar aquele que faz uso dela. Também se poderia falar abertamente sobre seu consumo e reprimi-lo, por exemplo, nos pátios das escolas; hoje, para fazer com que um estudante pare de fumar um baseado, é necessário ameaçar chamar a polícia. Baseados legalizados, seria então possível distribuir por aí placas de "proibido fumar" e reprimir o fumo de cigarros e o que mais houver sem penalizar criminalmente quem cometer alguma contravenção.
Deveríamos largar mão de preconceitos e agir mais razoavelmente contra as violências da sociedade. Afinal de contas a poucos interessa que a maconha seja proibida: aos mesmos de sempre: àqueles que têm a faca e o queijo na mão, os bolsos cheios da grana e querem mais é ver pobre se foder em delegacia.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Fui assistir ao último filme do Woody Allen - "Tudo pode dar certo". No filme, dá tudo certo; foi bom ir ao cinema: ele me disse, num dia tão melancólico, tudo o que eu queria ouvir, muito do que precisava ouvir. A receita da felicidade: faça o que gosta, faça bem, arranje um par e não tem muito mais a fazer. Seja como for, ainda não preencho nenhum esses pré-requisitos e sigo vivendo.

terça-feira, 25 de maio de 2010

De Warhol e da greve do funcionalismo da USP

Fui à exposição do Andy Warhol. Se já não houvesse terminado, recomendaria.

 Na USP há greve, como todos os anos. Construída pelo mesmo grupo de pessoas. A LERQI, A Negação da Negação, o PSTU; eles sempre chamam para as Assembléias quando precisam de números, mas nunca permitem que se diga o que se pensa. As únicas pessoas que prestam são as que pensam como eles e não discordam de nada; tomam para si o direito de protestar, mas não suportam os que não estão de acordo com eles. Seria bom pensar que são só idiotas ou infantis, mas naquela "esquerda" organizada estão presentes, mais do que em outros grupos, os germes do totalitarismo fascista que eles amam tanto apontar nos outros. As reivindicações dos funcionários? Aumento salarial. E eles ganham pouco mesmo. Ainda assim, devoram quase todo o orçamento da USP.
A justiça é só um ponto de vista. Quem tem de conviver com eles sabe que essa gente não ganha mal: são improdutivos, incompetentes, ríspidos e inaptos - os que têm essa função -  a trabalhar com o público. Trabalham pouco. São blindados por todos os lados. A ouvidoria da Universidade é um orgão ineficaz e omisso. A USP, infelizmente, terá de ser reformada para se tornar (para continuar a ser) o motor propulsor da geração de conhecimentos para o País, para continuar a exercer o papel de excelência na crítica social - sem se tornar um parasita do Estado, um corpo emperrado por uma burocracia que trava o aumento no padrão de qualidade da pesquisa e composto de pessoas desinteressadas no bom andamento de seu trabalho, livre de uma gente mesquinha que, escondendo-se hipocritamente atrás de um discurso demagógico de igualdade, de direitos do trabalhador, luta para conservar as coisas exatamente como estão dizendo que tudo tem de mudar.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

À REBOURS

First things first.

Pois eu nasci com o sol em 24 de abril de 1981.
Fui uma criança engraçada, dizem, brincalhão e palhaço. Fui crescendo e ficando insuportável, insolente e cheios de respostas. Tinha também muitas dúvidas e desenhava em folhas de rascunho que minha mãe trazia da biblioteca onde era bibliotecária.
Quando tinha alguns meses, minha mãe me deixou uns minutos sobre a cama do quarto; virei e caí de cara no chão. Acudiram o bebê, que chorava muito.
Cresci, mas não muito. Estudei, mas não o bastante. Hoje não sou nada. Nesta data, sou estagiário numa certa biblioteca de uma certa universidade. Quase trinta anos. Glórias, nenhuma. Vergonha, alguma, nem por isso o suficiente.
Trabalho meio período e tenho, durante o expediente, muito tempo livre. Guardo os livros nas estantes. Anoto: teses, referência, periódicos. Atendo os estudantes no balcão. Sou, com eles, suficientemente gentil, vez ou outra peço silêncio na sala, nem por isso me odeiam. Me desprezam com alguma ternura, na minha insignificância de universitário balconista. As meninas, especialmente, gostam muito de mim. Sempre gostaram. Como se gosta de gatos ou periquitos.

...

O início é a parte mais difícil de qualquer processo. Ao visitante eu digo que já comecei muitas vezes. Apaguei muito do que já havia dito por vergonha, porque achei feio, muitos motivos; reinicio agora por necessidade, é isso. Não pensem que por vaidade.

Vou contar a história da minha vida. Alguns nomes eu vou omitir. Outros vou dizer. Outros vou mentir. Assim.
Peço desculpas pelo estilo, mas o estilo é o de menos. Estilo é para quem pode e não para quem quer. Com estilo se nasce. E eu não sou nem Machado nem Bernardo Soares.
Não tenham dó de mim. Antes, compreendam.