quinta-feira, 10 de junho de 2010

No more tears


Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa da minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
e depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos grande
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar.



As pessoas falam demais em contemporaneidade. Demais. A contemporaneidade passou a ser um valor por si: amamos mais o que é contemporâneo, fazemos um enorme esforço para sermos modernos, superarmos nosso tempo. Os diretores de hoje são melhores que os de ontem; o filme argentino que ganhou o Oscar nos diz mais do que Bergman, é isso aí. Eu gosto dessa poeta portuguesa, viva, Adília Lopes. Adília Lopes é um pseudônimo, mas não interessa. Não me interessa minimamente quem é Adília Lopes, a mulher. Eu amo Adília Lopes poeta, inalcançável, diáfana e metafísica - carne, corpo, dor, irmã em seus poemas.

Paul Klee: A virgem na árvore, 1903.

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