segunda-feira, 6 de junho de 2011

Quatro de junho conheci alguém.
Não tenho tempo para gente
ocupado por mim.
Esses comprimidos são mesmo bons
mas a Nina Simone que ele me mandou de presente
mexe comigo, ou talvez seja o uísque falsificado
da festa de ontem. Caiu como uma luva.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Atravessando a passarela sobre a Raposo Tavares

Eu vi toda a cidade
o sol ia manchando os prédios 
amarelos (e se o céu estava azul,
as nuvens tão gordas, espaçadas, porém,
choviam sem pressa nenhuma)
aquela luz incomum
não feria;
eu vi enquanto atravessava a passarela 
por sobre a Raposo Tavares
um arco íris que ia de Pinheiros até o Itaim,
mentira, ia de lugar nenhum a lugar nenhum
mas estava lá
impalpável
e eu pensei que aquilo era lindo;
uma senhora passou por mim
carregada de sacolas do supermercado
olhando o espetáculo público
divino e gratuito e sorriu e eu lhe sorri
porque o arco íris
porque o sol
porque a tarde
e eu me senti tão grato à minha vida que me dá tanto.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O querido balcão
da biblioteca
se desfez de uma vez
e encontro-me aqui
frente para o mundo
sem parapeito que guarde
o meu coração.
Hoje eu sou estudante de direito,
atirei-me
buscando algum êxito.

Não tenho amor,
Não tenho postura,
Falta-me tudo
e não falta nada.
Meu aniversário é domingo de Páscoa.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Essa tristeza tira o meu lugar no mundo.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Ontem foi dia de São Valentim e eu quis morrer.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Toscana

Rumor de lagartos na canícula
Janelas verdes
arcos
ciprestes e azeite.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O mau silencioso

O céu, tão azul, em mim não desperta nada.
O dia, sereno, embutido de sol,
abarrotado de sol,
recorda-me somente Alcides Celso Villaça que me vira a cara,
ou verões de há dez anos, em que, quase criança,
soube do dia de hoje.
Lâmpadas são muito tristes.
Conheces o silêncio dos mortos?

Batalha perdida

Desperto, tranquilo e sereno
observo, capitão de mim mesmo
a guerra que perco
contra o resto de tudo o que resta.
O desfecho é um só
embora a rendição possa dar-se
por minha mão, somente.
Há desonra na perda, mas o que é a perda
senão o final mais certo
de uma vida de perdas caladas?
É o fim, com certeza,
e estou tão cansado. 
Cansado de tudo,
de mim e dos outros.
Dói dar bom dia
e mais ainda receber o bom dia
formal, antipático, o sorriso de gelo.
Será que não têm vergonha,
não aprenderam das mães como é feio mentir?
As mães são cristãs,
os pais militares,
os filhos hipócritas,
o mundo a cloaca mágica
de falsos sorrisos. Eu, derrotado,
por fim talvez vencedor, que ironia,
ao tomar em mãos o meu próprio destino
decidindo, enfim, o fim de mim entre todos.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O modernismo equivocou-se

No final dos anos 60 que construíram aquele trambolho de concreto sobre a Praça Roosevelt. A praça já havia, ou algo como uma praça. O espaço atrás da igreja da Consolação revezava-se entre estacionamento e feira livre, era de paralelepípedos.
Daí chegaram os cretinos da FAU-USP mostrando a que vieram: escreveram um artigo cheio de sofismas bonitos e publicaram em revista. Um "edifício praça e mercado" respondendo à "vocação do espaço" (a ser estacionamento).
Tacaram mais concreto sobre a cidade num período em que já se iniciava a discussão sobre microclima, os acadêmicos da arquitetura, os paisagistas do cimento armado. Pelo o menos combinou com o minhocão.
Na falta de verde, nos anos oitenta, a solução: pintaram a praça de verde!
Finalmente, o chão. Sobre a praça de cimento e ferro, plantarão árvores.
Tomara que volte a ter seu nome antigo: Praça da Consolação. Bem mais bonito.
Viva o teatro, a vida, o bar, a noite!

domingo, 9 de janeiro de 2011

Ano novo

Vida nova.
A vida é a mesma,o mundo também
eu é que quero ser diferente e mais doce.
Desfazer-me do que resta em mim
de inerte cruel resignado e triste,
do que como um grande peso eu levo
cadeado enorme sobre o tornozelo.
Libertar-me dele, de mim.
Felizes os homens que trazem
na alma o amor à vida e no rosto
o calmo sorriso dos que descansam
satisfeitos da sorte que construíram:
estes não terão maus pensamentos e
trarão felicidade a si e aos seus queridos
que verdadeira virtude é o contentar-se
do grão que somos de estrelas desfeitas.
Paul Klee: O abraço. 1939.