Renata brigou comigo,
não atende mais o telefone;
brigou porque tem tristeza,
tem tristeza porque tem ciúme.
A Renata tem muitos vícios,
tem muitos vícios e não assume:
põe a culpa na pobreza,
mas é a pobreza,
ensinou-me um sábio,
que ressalta as virtudes.
Me bloqueou no Facebook, até.
Livro, bicicleta, a conta do restaurante,
nada disso me importa mais
(nem, em verdade, importou)
mas há algo que me é caro,
algo que está com você,
é um livro:
Renata, eu lhe peço,
devolva o que é meu:
o roubo é uma falta tão grave
que não vale a pena manchar-se dela
tomando o que não é seu.
Não há esperteza no mundo
que valha sem honra e valor
essa é a moral dos ricos de espírito
de que nem os pobres estão eximidos.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
O estranho caso de Angélica - Manuel de Oliveira
Fiquei estarrecido ao confrontar minha opinião à da crítica sobre o último de Manuel de Oliveira, diretor que, assumo, desconheço: é difícil, portanto, estabelecer relações. Mas o filme é antinatural nas atuações, tem diálogos engessados, antigos, com acentos de erudição poética e uma estória construída em moldes ainda mais antigos que o diretor: um fotógrafo sefardita, Isaac, apaixona-se pelo cadáver de que foi contratado para tirar fotografias, a linda Angélica morta com sorriso na cara, açucaradamente reclinada sobre o canapé onde a mãe e a criada antissemita a haviam ajeitado como um enfeite. Doido de amores necrófilos o moço acaba perdendo a cabeça e enlouquecendo, vindo a falecer. Essa é velha, gente que endoidece por causa da sexualidade perversa. De qualquer maneira, uma história muito da mal contata e muito besta. Anotei o título dos romances que o Isaac tinha na cabeceira da cama - que fizeram questão de fotografar bem de perto a lombada e eu tomei como recomendação. Não paguei pela sessão no MIS. Ok.
Publicada por
Sergei
em
00:23
Etiquetas:
fantasma,
filme,
manuel de oliveira,
o estranho caso de angélica,
portugal
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Célia, Conceição e toda a gente
Meus versos são meus solilóquios:
minha forma viril de fugir ao tédio.
Célia e Conceição estão e não estão:
todo o dia seus corpos se movem
e dir-se-ia mesmo que falam, não fosse
que não dizem nada.
Que importa a elas a metafísica das coisas,
a sutileza de artistas flamingos
que não se podem servir à janta?
Célia e Conceição, funcionárias da biblioteca
de livros que não aprenderam a amar,
são toda a gente ao redor...
O silêncio das bibliotecas é sagrado,
(é mais sagrado)
que os altares a que se referem, bestas,
em romarias durante a Quaresma.
Malditas, como toca este telefone e como falam!
Eu, comigo, rio-me delas:
convido-o a ti, que lês isto aqui
que também delas te rias,
como de toda a gente.
Há, nos mínimos gestos,
significados além deles mesmos:
a transcendência do mundo está
no amor que dedicamos ao próximo:
se nada resta da vida quando termina
como do balcão desta biblioteca em mim quando me vou,
ao menos o silêncio dediquemos ao outro
em respeito a suas dúvidas e labor
seja ele, o silêncio, o que restou de sagrado,
minha declaração de amor.
minha forma viril de fugir ao tédio.
Célia e Conceição estão e não estão:
todo o dia seus corpos se movem
e dir-se-ia mesmo que falam, não fosse
que não dizem nada.
Que importa a elas a metafísica das coisas,
a sutileza de artistas flamingos
que não se podem servir à janta?
Célia e Conceição, funcionárias da biblioteca
de livros que não aprenderam a amar,
são toda a gente ao redor...
O silêncio das bibliotecas é sagrado,
(é mais sagrado)
que os altares a que se referem, bestas,
em romarias durante a Quaresma.
Malditas, como toca este telefone e como falam!
Eu, comigo, rio-me delas:
convido-o a ti, que lês isto aqui
que também delas te rias,
como de toda a gente.
Há, nos mínimos gestos,
significados além deles mesmos:
a transcendência do mundo está
no amor que dedicamos ao próximo:
se nada resta da vida quando termina
como do balcão desta biblioteca em mim quando me vou,
ao menos o silêncio dediquemos ao outro
em respeito a suas dúvidas e labor
seja ele, o silêncio, o que restou de sagrado,
minha declaração de amor.
Assinar:
Postagens (Atom)
