quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Célia, Conceição e toda a gente

Meus versos são meus solilóquios:
minha forma viril de fugir ao tédio.
Célia e Conceição estão e não estão:
todo o dia seus corpos se movem
e dir-se-ia mesmo que falam, não fosse
que não dizem nada.
Que importa a elas a metafísica das coisas,
a sutileza de artistas flamingos
que não se podem servir à janta?

Célia e Conceição, funcionárias da biblioteca
de livros que não aprenderam a amar,
são toda a gente ao redor...
O silêncio das bibliotecas é sagrado,
(é mais sagrado)
que os altares a que se referem, bestas,
em romarias durante a Quaresma.
Malditas, como toca este telefone e como falam!

Eu, comigo, rio-me delas:
convido-o a ti, que lês isto aqui
que também delas te rias,
como de toda a gente.
Há, nos mínimos gestos,
significados além deles mesmos:
a transcendência do mundo está
no amor que dedicamos ao próximo:
se nada resta da vida quando termina
como do balcão desta biblioteca em mim quando me vou,
ao menos o silêncio dediquemos ao outro
em respeito a suas dúvidas e labor
seja ele, o silêncio, o que restou de sagrado,
minha declaração de amor.

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