sexta-feira, 11 de junho de 2010

A Arca Russa

Todo mundo achou este filme chato. Não é muito longo, dura como os outros, uma hora e meia. Numa única tomada, sem cortes, acompanhamos dois fantasmas perdidos no tempo, na eternidade de um Palácio de Inverno gelado em São Petersburgo. Como são eternos, viajam também pelo tempo, passando de um salão ao outro, de uma época a outra, encontrando personagens ilustres que habitaram aqueles muros: Pedro o Grande, Catarina II, uma comitiva persa, o diretor do Hermitage à época de Stalin, Pushkin tendo uma crise de ciúmes da esposa; viajam pela Rússia: um espírito do passado, romântico, outsider, dono de uma ironia que não preserva nada, Marquês de Custine; o outro, moderno, algo passivo em relação a Custine, o verdadeiro protagonista, o olhar da câmera, do público.
A mim, o filme tocou imensamente: foi uma verdadeira "Arca Russa" dentro da qual, desordenadamente (que importa), achei pérolas e elementos da Humanidade, mais do que russa, dos últimos trezentos anos - mas principalmente do século que passou, que sepultou tantas castas, tantos hábitos e crenças que se queriam eternos.
Fragmentário, erudito, hermético - um pouco saudosista talvez - este filme caracteriza bem esse país - uma cultura única, cravada entre Europa e Ásia, uma mistura bizantina de dois continentes, um império imenso, hoje à deriva num oceano de possibilidades, sem porto, fadado a uma existência sem semelhantes.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

No more tears


Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa da minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
e depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos grande
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar.



As pessoas falam demais em contemporaneidade. Demais. A contemporaneidade passou a ser um valor por si: amamos mais o que é contemporâneo, fazemos um enorme esforço para sermos modernos, superarmos nosso tempo. Os diretores de hoje são melhores que os de ontem; o filme argentino que ganhou o Oscar nos diz mais do que Bergman, é isso aí. Eu gosto dessa poeta portuguesa, viva, Adília Lopes. Adília Lopes é um pseudônimo, mas não interessa. Não me interessa minimamente quem é Adília Lopes, a mulher. Eu amo Adília Lopes poeta, inalcançável, diáfana e metafísica - carne, corpo, dor, irmã em seus poemas.

Paul Klee: A virgem na árvore, 1903.

O diretor autríaco Michael Haneke apresentou, este ano, em Cannes, mais um filme: A fita branca. Alguém deve ter tido a paciência de ficar na sala por mais de duas horas de filme, como eu: a fotografia primorosa em preto e branco, ótimas atuações e um roteiro interessante, ambíguo (como de praxe para o diretor), denso, algo sinistro. Os temas de Haneke costumam ser a opressão, o sofrimento, o mal. Como toda obra de arte, o filme é um símbolo. Importa menos, no desfecho, quem cometeu os crimes do que a reflexão sobre a educação que os filhos do pastor recebiam, sobre a relação que o barão mantinha com seus empregados, que o médico com sua amante e sua filha; como nos amamos, como crescemos e nos casamos, no que nos tornamos - frutos nós mesmos de nossas experiências.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Maconha e dominação

Uma vez por ano, há alguns anos, um grupo de jovens se reúne na Av. Paulista ou no Ibirapuera para pedir a descriminalização do uso da Cannabis Sativa, a maconha. O protesto é invariavelmente reprimido pela Polícia Militar, apesar da presença de políticos e do apoio que a marcha recebe de alguns setores sociais, sob pretexto de "Apologia ao Crime". Ninguém sabe definir exatamente o que é essa apologia à droga. Acho que não tem ninguém ali dizendo que maconha é bom e saudável ou que o tráfico de drogas é patrimônio nacional: pelo contrário, as pessoas querem expressar livremente sua opinião sobre um tema discutido em diversas esferas da coisa pública. A legalização do uso e plantio da Cannabis, por exemplo, poderia gerar estudos clínicos sobre seu uso, poderia aumentar a qualidade do produto que circula por aí - causando menos prejuízo aos usuários que têm de entuchar o cérebro com amoníaco e esterco - poderia diminuir a violência causada pelo tráfico. Não: reprime-se a marcha num atentado às liberdades democráticas - um de seus valores mais importantes é justamente a liberdade de poder expressar as próprias idéias, distorcem-se o significado de um movimento e suas ideias. 
No entanto, o uso da maconha é largamente tolerado. Todo o mundo fuma: jornalistas, psicólogos, engenheiros, advogados. O uso está altamente disseminado. Nas escolas, nas universidades, todo o mundo fuma. O povo todo fuma. Um uso que não está livre de prejuízos, no entanto. A noção de que "maconha não é droga" também está equivocada. É droga sim, como o álcool e o tabaco também o são e traz consigo danos à saúde e à psique do usuário - que vão desde prejuízos à memória, atenção, depressão e por aí vai. Contudo, a maconha estando legalizada, já não se poderia tão facilmente prender ou incriminar aquele que faz uso dela. Também se poderia falar abertamente sobre seu consumo e reprimi-lo, por exemplo, nos pátios das escolas; hoje, para fazer com que um estudante pare de fumar um baseado, é necessário ameaçar chamar a polícia. Baseados legalizados, seria então possível distribuir por aí placas de "proibido fumar" e reprimir o fumo de cigarros e o que mais houver sem penalizar criminalmente quem cometer alguma contravenção.
Deveríamos largar mão de preconceitos e agir mais razoavelmente contra as violências da sociedade. Afinal de contas a poucos interessa que a maconha seja proibida: aos mesmos de sempre: àqueles que têm a faca e o queijo na mão, os bolsos cheios da grana e querem mais é ver pobre se foder em delegacia.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Fui assistir ao último filme do Woody Allen - "Tudo pode dar certo". No filme, dá tudo certo; foi bom ir ao cinema: ele me disse, num dia tão melancólico, tudo o que eu queria ouvir, muito do que precisava ouvir. A receita da felicidade: faça o que gosta, faça bem, arranje um par e não tem muito mais a fazer. Seja como for, ainda não preencho nenhum esses pré-requisitos e sigo vivendo.